
O Terceiro Governo Lula: O Crescimento com Tensão Fiscal (2023–presente)

Introdução
“Se a meta de inflação está errada, muda-se a meta”
— Luiz Inácio Lula da Silva
O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva iniciou-se em janeiro de 2023 sob um cenário de profunda polarização política e imensos desafios institucionais. Após vencer as eleições presidenciais mais acirradas da história recente, o governo assumiu o poder com o objetivo de recompor uma agenda neodesenvolvimentista, focada no reaquecimento do mercado interno, na ampliação de investimentos públicos e no fortalecimento de programas sociais — como o programa “Pé de Meia” para o ensino médio e o “Desenrola” para a renegociação de dívidas da população.
No entanto, a condução da política macroeconômica operou sob uma constante disputa de narrativas e interesses entre as metas do governo e as exigências do mercado financeiro. O cerne desse embate concentrou-se na autoridade monetária: sob a vigência da autonomia do Banco Central, o governo enfrentou uma política de juros fortemente restritiva mantida pela instituição. Essa queda de braço em torno da taxa Selic — considerada excessivamente alta pelo setor produtivo, pela indústria nacional e pela própria presidência da República — marcou o ritmo da atividade econômica e gerou intensas discussões sobre o equilíbrio entre a responsabilidade fiscal (instituída pelo novo Arcabouço Fiscal) e a necessidade de gastos sociais e crédito subsidiado para o setor industrial.
No front externo, o governo buscou retomar uma diplomacia ativa de forte presença global e foco nas relações Sul-Sul. O Brasil reaproximou-se estrategicamente da China e dos BRICS, ao mesmo tempo em que negociou complexos acordos comerciais, como o tratado entre Mercosul e União Europeia, e sediou fóruns de relevância internacional, incluindo a preparação para a COP30. Essa política de inserção global, contudo, navegou em um cenário geopolítico tenso, exigindo um delicado equilíbrio diplomático nas relações com os Estados Unidos — marcadas por pressões comerciais envolvendo tarifas de importação, interesse em minerais estratégicos como o lítio (terras raras) e disputas de influência na América Latina.
Para compreender os desdobramentos práticos e os resultados econômicos dessa complexa conjuntura, este bloco analisa a evolução integrada de três variáveis fundamentais:
A Inflação (IPCA): O comportamento dos preços sob o novo arranjo fiscal e os impactos das pressões de oferta e demanda doméstica.
A Dinâmica Cambial: As flutuações e a volatilidade do Real em meio à transição das cadeias globais de valor, ao comércio de commodities e às tensões geopolíticas entre as grandes potências.
A Taxa Selic: A trajetória dos juros sob uma gestão autônoma do Banco Central e os reflexos dessa política restritiva sobre o crescimento do PIB.
A Inflação (IPCA)
O gráfico da variação trimestral do IPCA ilustra com precisão a montanha-russa que foi controlar os preços no início do governo Lula , refletindo a constante queda de braço entre o Palácio do Planalto e a diretoria do Banco Central. No início de 2024, o gráfico mostra uma primeira subida da inflação. Isso aconteceu porque a economia estava aquecida com os novos gastos sociais e o aumento do salário mínimo, fazendo o consumo disparar — o que naturalmente pressionou os preços. Para conter esse avanço, o Banco Central manteve o pé no freio com juros altos, o que explica o recuo temporário que vemos logo em seguida, ainda em 2024.
O grande susto, no entanto, aparece na virada para 2025: a linha do IPCA dá uma guinada para cima e atinge o ponto mais alto do gráfico, rompendo a barreira dos 2% no trimestre. Esse pico dramático não foi culpa apenas da demanda interna, mas sim de uma tempestade perfeita: o dólar subiu forte (encarecendo os produtos importados) e o clima seco castigou o país, fazendo a conta de luz e o preço dos alimentos no supermercado dispararem. Foi o momento de maior tensão no governo, com o mercado financeiro cobrando responsabilidade fiscal e o governo reclamando que a inflação era de oferta, e não de demanda.
Felizmente, o gráfico mostra que o pior passou rápido. Logo após o pico de 2025, a linha despenca de forma vertical, desbancando para patamares bem mais baixos e estabilizando ao longo de 2026. Essa melhora expressiva na reta final reflete o efeito do “remédio amargo” do Banco Central, que subiu os juros para acalmar os ânimos, somado à volta das chuvas que normalizou os preços da energia e dos alimentos. O governo conseguiu encerrar esse período com a inflação sob controle e rastejando abaixo de 0,75% ao trimestre, mas o desenho do gráfico deixa claro que o caminho até ali foi uma verdadeira batalha macroeconômica.
A Dinâmica Cambial

O gráfico da dinâmica cambial no governo Lula funciona quase como um termômetro das tensões geopolíticas internacionais e das desconfianças do mercado financeiro local. No primeiro ano do mandato, em 2023, nota-se uma leve trajetória de queda nas linhas do Dólar (vermelha) e do Euro (verde), mostrando um momento em que o Real ganhou força graças ao bom desempenho das exportações de commodities brasileiras e à entrada de capital estrangeiro. No entanto, a partir do meio de 2024, o cenário muda drasticamente e as linhas começam uma subida íngreme. Esse movimento reflete o início de um período de forte desvalorização da nossa moeda, puxado pelas incertezas do mercado em relação ao cumprimento das metas fiscais do governo e pela alta dos juros nos Estados Unidos, que acabou drenando dólares do Brasil.
O topo desse movimento acontece na virada para 2025, onde o gráfico mostra o Dólar encostando na casa dos R$ 5,80 e o Euro rompendo a barreira histórica dos R$ 6,00. Foi o momento crítico de maior estresse cambial, que inclusive alimentou aquele pico inflacionário do IPCA que analisamos anteriormente. Após esse susto, ao longo de 2025 e 2026, as linhas apresentam uma leve correção e estabilizam-se em patamares elevados.
Por outro lado, o comportamento da linha azul do Yuan chinês chama a atenção por se manter praticamente linear, plana e colada na base do gráfico ao longo de todo o período. Como o valor nominal de um Yuan equivale a uma fração pequena do Real, as variações diárias da moeda chinesa quase não alteram o desenho da linha. Ainda assim, essa estabilidade visual contrasta com a importância estratégica descrita na introdução: mesmo rasteira no gráfico devido ao seu valor nominal baixo, a paridade com o Yuan simboliza a aproximação comercial do Brasil com os BRICS e o esforço do governo em fortalecer o comércio bilateral diretamente na moeda chinesa, tentando blindar o país da forte volatilidade apresentada pelo Dólar e pelo Euro.
A Taxa Selic

O gráfico da Taxa Selic no governo Lula sintetiza a dura queda de braço entre o Palácio do Planalto e o Banco Central autônomo. Em 2023, a linha começa travada no patamar elevado de 13,75% ao ano, reflexo dos juros herdados do período anterior. Essa estabilidade gerou fortes críticas do governo e do setor produtivo, que cobravam juros menores para estimular o PIB e destravar o crédito.
A resposta a essas pressões veio ao longo de 2024, período em que o gráfico mostra uma descida gradual e constante da taxa, atingindo o seu piso próximo a 10,5%. Esse alívio monetário, contudo, reverteu-se drasticamente na virada para 2025. Diante do disparo do dólar, das incertezas fiscais e do pico inflacionário do IPCA, o Banco Central puxou o freio de mão da economia. A linha inicia uma subida vertical e agressiva, estacionando no teto de 14,9% ao ano durante 2026. Foi justamente esse patamar restritivo que garantiu o recuo da inflação na reta final, apesar do forte descontentamento político.