
O Governo Dilma: Intervencionismo Estatal e Instabilidade Política

Introdução
“É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com um dos juros mais altos do mundo. Esses valores não podem continuar tão altos.”
— Dilma Rousseff
O governo Dilma Rousseff iniciou-se com duas medidas centrais: o aumento da taxa de juros e o corte de gastos públicos. Ambas tinham como objetivo moderar o consumo e o ritmo de crescimento econômico, que fora excessivamente alto no ano anterior (cerca de \(7,5\%\) em 2010). Essas medidas eram consideradas necessárias para conter a inflação, que se aproximava do teto da meta do Regime de Metas de Inflação (RMI).
Mas, no segundo semestre de 2011, cedendo às críticas de empresários e trabalhadores sindicalistas a uma desaceleração do PIB, o governo decidiu diminuir a taxa de juros e lançar o Plano Brasil Maior (PBM), um programa focado em subsídios e financiamentos para a economia. O maior foco foi a indústria, buscando impulsionar o crescimento a partir deste setor — tanto para abastecer o mercado interno quanto para estimular as exportações, que seriam facilitadas por uma desvalorização cambial. Essa nova orientação política foi denominada Nova Matriz Econômica. No entanto, devido às fortes críticas a essa condução, agora por parte dos investidores do mercado financeiro e da imprensa, em abril de 2013 o governo voltou a aumentar a taxa de juros, sem abrir mão dos subsídios e financiamentos industriais.
No front externo, a economia mundial registrava menor crescimento e, consequentemente, importava menos. Devido a isso, apesar dos incentivos governamentais, as exportações brasileiras não apresentaram a capacidade de crescimento esperada — até porque, mesmo com a desvalorização cambial realizada, a moeda nacional ainda exibia sinais de sobrevalorização.
À medida que a Nova Matriz Econômica avançava, o controle do IPCA passou a depender do represamento artificial de preços administrados, como combustíveis e energia elétrica. Essa política gerou fortes desequilíbrios fiscais que, somados à deterioração das contas públicas (as chamadas “pedaladas fiscais”), culminaram na perda do grau de investimento do país pelas agências de risco. A perda de credibilidade provocou uma forte fuga de capitais, resultando em uma desvalorização cambial severa. Para tentar conter a inflação que fora reprimida e posteriormente liberada, o Banco Central foi obrigado a elevar a taxa Selic drasticamente, alcançando o patamar de \(14,25\%\) ao ano no final de 2015, consolidando um cenário de profunda recessão.
Para compreender a fundo a dinâmica e os desdobramentos desse período, analisamos a evolução integrada de três variáveis centrais da política macroeconômica:
A Inflação (IPCA): O impacto inicial do represamento de preços administrados e a subsequente disparada com a liberação das tarifas.
A Dinâmica Cambial: A desvalorização induzida no primeiro momento e a forte depreciação do Real causada pela perda de credibilidade internacional.
A Taxa Selic: O ciclo inédito de queda forçada dos juros no início do mandato e o severo choque de alta necessário para conter a crise a partir de 2013.
O agravamento desse quadro econômico, caracterizado pela combinação de recessão profunda, inflação flertando com os dois dígitos e desvalorização cambial severa, aprofundou a crise política do período. Esse cenário culminou no processo de impeachment de Dilma Rousseff, interrompendo o seu segundo mandato em agosto de 2016. Naquele momento de transição de poder, a taxa Selic encontrava-se estacionada em seu patamar máximo de \(14,25\%\) ao ano, o IPCA acumulado em 12 meses iniciava uma trajetória de desaceleração lenta após atingir mais de \(10\%\) em 2015, e a taxa de câmbio exibia forte volatilidade, refletindo as incertezas institucionais que seriam herdadas pelo governo seguinte.
A Inflação (IPCA)
O gráfico da variação trimestral do IPCA reflete com precisão as idas e vindas da Nova Matriz Econômica e os choques estruturais que marcaram o governo Dilma Rousseff. Como observado no início do gráfico, o ano de 2011 começa com uma pressão inflacionária herdada do forte crescimento de 2010. Em resposta a essa elevação inicial, o governo acionou os mecanismos tradicionais de política monetária e fiscal, elevando a taxa de juros e contendo gastos. O gráfico demonstra o resultado positivo dessa estratégia ao longo de 2011 e início de 2012, período em que a variação trimestral da inflação apresenta uma queda acentuada, aproximando-se de patamares mais confortáveis.
A partir do segundo semestre de 2011, cedendo às pressões políticas e empresariais contra a desaceleração do PIB, o governo iniciou uma forte flexibilização monetária, forçando a queda da Selic. Para evitar que essa injeção de estímulos fizesse a inflação explodir, a gestão adotou uma política de represamento artificial de preços administrados (como combustíveis e energia elétrica). No gráfico, esse período se traduz em dentes de oscilação contida: a inflação tenta subir devido ao aquecimento da demanda, mas recua temporariamente sob o efeito dos congelamentos tarifários, gerando uma falsa sensação de controle até meados de 2014.
O represamento artificial mostrou-se insustentável após as eleições. No início de 2015, as tarifas foram liberadas de uma só vez para corrigir os rombos fiscais das estatais, ao mesmo tempo em que o país sofria uma severa desvalorização cambial. O resultado prático é o pico histórico visível no gráfico em 2015: a inflação trimestral dispara, rompendo o teto e flertando com os dois dígitos no acumulado anual. Para conter essa disparada, o Banco Central foi obrigado a elevar a Selic ao patamar drástico de 14,25% ao ano. Esse forte remédio monetário, somado à recessão profunda que se instalou, explica a queda abrupta da inflação observada entre o final de 2015 e o ano de 2016, quando a contração da atividade econômica acabou por desinflar os preços pela base da demanda.
A Dinâmica Cambial

O gráfico comparativo das taxas de câmbio ilustra a trajetória do Real em relação a uma cesta de moedas fortes (o Dólar americano, o Euro e o Yuan chinês), evidenciando a perda de poder de compra da moeda nacional. Isso fica mais evidente se observarmos o comportamento do Yuan chinês (linha azul): durante os governos anteriores e o início do governo Dilma, a variação dessa linha era muito próxima de zero, mantendo uma estabilidade linear em patamares baixos. Contudo, entre 2015 e 2016, percebe-se um crescimento nítido e uma quebra dessa calmaria. Esse movimento gráfico revela que a crise de credibilidade interna e a severa recessão brasileira foram tão intensas que o Real perdeu valor de forma generalizada — não apenas frente às moedas ocidentais tradicionais, como o Dólar e o Euro, mas também perante o Yuan, consolidando o cenário de depreciação global da nossa moeda no desfecho daquele mandato.
A Taxa Selic

O gráfico da Taxa Selic ilustra a trajetória dos juros básicos da economia e evidencia o forte impacto das pressões políticas e sociais do período sobre a autoridade monetária. Inicialmente, o governo cedeu às duras críticas de trabalhadores e sindicalistas que exigiam a redução imediata dos juros para estimular o PIB, o que explica a tendência de queda das linhas no início do mandato. Contudo, essa tentativa de forçar os juros para baixo acabou alimentando a inflação e, pouco tempo depois, o cenário se reverteu com fortes críticas por parte de investidores e da imprensa, que passavam a exigir a subida dos juros para conter os preços. Se observarmos o comportamento da linha do Yuan chinês (linha azul no gráfico anterior), sua variação era quase zero nos anos anteriores a 2015, mantendo-se linear e rasteira. Porém, entre 2015 e 2016, com o agravamento da crise e a necessidade de um ajuste drástico, podemos perceber um crescimento nítido e vertical. Esse movimento no gráfico revela que o desajuste macroeconômico foi tão severo que forçou um choque de juros recorde no encerramento daquele mandato para tentar segurar as expectativas do mercado.